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segunda-feira, 20 de junho de 2011

RESENHA SOBRE A CORRESPONDÊNCIA COMPLETA DE RIMBAUD



Abandonado pelo universo


CorrespondênciaArthur Rimbaud
Trad., notas e comentários: Ivo Barroso
Topbooks
476 págs.


Finalmente temos o terceiro e último volume das obras completas de Arthur Rimbaud, preparadas e traduzidas por Ivo Barroso, responsável por outras competentes transposições de clássicos para a nossa língua, tais como Shakespeare, Blake, Poe, Eliot e Strindberg. Aqueles que aguardavam já sem muita esperança a Correspondência de Rimbaud — que fecha a trilogia iniciada anos atrás com o volume I, Poesia completa, e o volume II, Prosa poética — sentirão que valeu a pena esperar. O volume ora editado é bem cuidado, ricamente ilustrado com desenhos de Rimbaud e de seus companheiros, além de fotos e mapas que nos fazem sentir um pouco do inferno que foram seus últimos anos de auto-exílio na África. Sem longas e tediosas introduções, a Correspondência inicia-se com o que interessa: as cartas literárias de Rimbaud, sempre acompanhadas de incisivos comentários de Ivo Barroso, postados à testa das missivas mais importantes e que, juntos, bem poderiam valer por uma biografia do poeta, trazendo-nos dados factuais e interpretativos da maior importância para a compreensão do contexto de cada carta.

Muitas delas soariam enigmáticas caso não fossem esclarecidas as condições de sua composição e os personagens que nelas gravitam. A tarefa de decifração da correspondência de Rimbaud é levada a efeito pelo tradutor sem enfastiar o leitor com acúmulo de dados, sem julgá-lo um idiota a quem tudo deve ser explicado, mas também sabendo-o não-especialista, razão pela qual fornece as chaves para interpretar não os textos, mas a vida de um dos personagens mais contraditórios da história da literatura. E tudo isso com a prosa elegante que marca entre nós a escrita de Ivo Barroso.

O que mais importa no livro são as primeiras 120 páginas, as cartas propriamente literárias do jovem poeta em que percebemos o intenso processo de formação a que se submeteu. A maioria dessas cartas apresenta registro extremamente irônico, todas são saborosas e muito bem escritas, ainda que contenham um punhado de neologismos, barbarismos e erros intencionais próprios da expressividade alucinada de Rimbaud. Nelas vemos se desenrolar a etapa inicial de seu drama. Se em um primeiro momento o poeta comparece de forma servil diante de Thédore Banville, editor da revista Parnasse Contemporain, implorando atenção e a publicação de seus versos (“Caro Mestre, ajude-me: Levanta-me um pouco: sou jovem: estenda-me a mão…”, carta de 24 de maio 1870), em pouquíssimo tempo Rimbaud, mergulhado em si mesmo, descrê da literatura de confete que se fazia em França e traça para si um destino literário único, inclassificável entre os decadentistas, simbolistas ou parnasianos que o rodeavam, o que não deixa de ser escandaloso para um francês, que, como bem disse Borges, quando escreve, escreve tendo em vista a sua futura inserção na história da literatura do país:

El defecto más constante de las letras francesas o, si se quiere, el carácter de esta literatura que puede muy fácilmente confundir a un extrangero, es la ansiedade cronológica e histórica de sus escritores. Demasiado modestos para considerar-se otra cosa que meros momentos posibles o necesarios de una evolución, demasiado lúcidos para no saber exactamente lo que emprenden, nunca se ven sub specie aeternitatis, siempre sub specie temporis vel historiae. Tratan, o bien de continuar una tradición o bien de contradecirla a sabiendas.

Pois bem, a partir da famosa “carta do vidente” (15 de maio de 1871), Rimbaud escapa desse joguinho que até hoje — principalmente hoje — mobiliza os literatos, e agora não só os franceses. Nesse documento fundamental Rimbaud traça seu método, consistente em

(…) um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; buscar a si, esgotar em si mesmo todos os venenos, a fim de só lhes reter a quintessência. Inefável tortura para a qual se necessita toda a fé, toda a força sobre-humana, e pela qual o poeta se torna o grande enfermo, o grande criminoso, o grande maldito, — e o Sabedor supremo! — pois alcança o insabido.

Neste credo poético-alquímico — notemos o uso maciço de expressões da alquimia (venenos, quintessência, Sabedor supremo, insabido etc.), desde sempre identificada com a mais alta poesia —, sentimos ressonâncias anteriores, improváveis, que remetem a William Blake. Em um dos seus provérbios do inferno, ele nos ensina que nunca saberemos o que é suficiente se não soubermos antes o que é demasiado. Outro provérbio rimbaudiano, isto é, do inferno: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Ressonâncias posteriores há muitas. Todo poeta que se preze já se pretendeu, ou é, vidente. Lembremo-nos apenas de Jim Morrison, genial vocalista e letrista do The Doors, que tinha o desregramento por regra e não à toa era um apaixonado pela poesia de Rimbaud.

Ponto alto
A carta do vidente, ponto alto da Correspondência, é decisiva a vários títulos. Nela se entremostra o senso crítico e anti-histórico de Rimbaud, sua convivência agressiva com a palavra que o leva a buscar uma linguagem universal, pretensão capaz de ligá-lo a Walter Benjamin — que via cada tradução como um pequeno passo rumo à linguagem total pré-babélica — e a Jorge Luis Borges, que encontra no aleph, a primeira letra do alfabeto hebraico, toda a realidade real e imaginável, e por isso mesmo o abandona aterrorizado, como prevê Rimbaud: “— Afinal, como toda palavra é idéia, a linguagem universal há de chegar um dia. (…) Os fracos que se pusessem a pensar sobre a primeira letra do alfabeto poderiam rapidamente mergulhar na loucura”. Perfeitamente consciente de seu involuntário destino, Rimbaud reconhece serem enormes os sofrimentos pelos quais passará — premonição do Gólgota africano? —, mas ainda assim acrescenta: “(…) é preciso ser forte, ter nascido poeta, e eu me reconheci poeta. Não é de fato culpa minha. É falso dizer: Eu penso: devíamos dizer: pensam-me” (13 de maio de 1871).

Claro, a vidência a que se refere Rimbaud é poética, tratando-se de uma espécie de visão total das coisas, imediata, própria de deus, tal como descrita por Irineu, citado por Borges: “Aeternitas est merum hodie, est inmediata et lucida fruitio rerum infinitarum”. A vidência não se resolve como antecipação de fatos e eventos, eis que, para um poeta do porte de Rimbaud, o tempo é artifício intrinsecamente falso. O que não o impediu de, em certas ocasiões estranhas, prever o seu futuro sombrio que, como se sabe, seria de abandono total da literatura e de desterro auto-imposto na África, onde se torna comerciante e traficante de armas, vivendo em infernos de areia, de vento e de temperaturas que podiam chegar aos 60 graus, atormentado por manias, neuroses e a ganância que o leva a atar na cintura oito quilos de moedas, o que, anota placidamente em uma carta à família, “me causa disenteria” (23 de agosto de 1887). Mas não só disenteria. Devido aos excessos na África — Rimbaud sempre será um homem de excessos, isso jamais mudará —, o ex-poeta desenvolverá ósseo-carcinoma, vindo a falecer em 10 de dezembro de 1891, totalmente devastado, com a perna amputada e o corpo paralisado, após as mais terríveis agonias, descritas de modo comovente pela irmã Isabelle nas cartas reunidas pelo tradutor no Anexo III do volume. Isabelle acompanhou o irmão em sua derradeira estadia no inferno, vendo-o tornar-se um ser quase imaterial, destroçado, esvaziado pela dor (28 de outubro de 1891). Nós, leitores, sabendo de antemão o que aguardava Rimbaud no hospital de Marselha, não podemos deixar de nos perturbar lendo sua carta de junho de 1872, destinada ao fiel amigo Ernest Delahaye: “Tenho uma sede de temer gangrena”. E depois, nas cartas da agonia, a descrição espasmódica, auto-irônica — ecos do antigo poeta? — e detalhada das torturas pelas quais passava: “Hoje faz quinze noites que não consigo pregar olho um só minuto, por causa das dores nesta maldita perna” (20 de fevereiro de 1891). “Virei um esqueleto: dou até medo. Minhas costas estão esfoladas por causa da cama; não consigo dormir um só minuto. E o calor aqui está cada vez mais forte” (30 de abril de 1891). “Adeus casamento, adeus família, adeus futuro! Minha vida acabou, não passo de um troço imóvel” (10 de julho de 1891). “Eis o belo resultado: (…) Tremes ao ver os objetos e as pessoas se moverem à tua volta, com medo de que te derrubem e te arranquem a outra pata. Riem-se ao ver-te saltitar. Ao te sentares, tuas mãos estão enfraquecidas, as axilas esfoladas e tens um aspecto de imbecil. O desespero toma conta de ti e permaneces sentado como um impotente completo, choramingando e esperando a noite, que te trará de novo a insônia perpétua, até chegar a manhã mais triste do que a véspera, etc., etc.” (15 de julho de 1891).

A maior parte da Correspondência foi escrita na África. As missivas que de lá Rimbaud enviou à família são muito diferentes das brilhantes cartas literárias, limitando-se a meras descrições dos locais em que esteve e de seus negócios, sempre demandando livros técnicos de metalurgia e disciplinas afins, além de materiais, roupas e outros objetos que lhe faltavam no deserto. O leitor pode se desanimar de enfrentar todo esse material opaco, convencido de que o poeta Rimbaud morreu em Charleville após terminar Uma estadia no inferno e As iluminações. Mas esta seria uma postura comodista e, como tal, equivocada. Henry Miller, autor de um polêmico e imprescindível ensaio sobre Rimbaud, assevera que para se avaliar a importância do poeta é preciso ler suas cartas africanas e se perguntar por que um homem de gênio como ele se encerrou num buraco onde se retorcia e ia sendo, pouco a pouco, assado. Acompanhar a transformação repentina de uma alma, conhecer as pequenas e as grandes misérias que Rimbaud viu nos desertos — onde se habituou “a viver de cansaço” (25 de maio de 1881) —, perceber como crescem a sua cupidez e os seus medos mais profundos — antes enfrentados com poesia e, na África, com francos-ouro — é, efetivamente, passar uma temporada no inferno para descobrir que as cartas de Rimbaud denunciam não apenas a formação de um homem, mas principalmente a sua deformação. E encontrar ecos-videntes entre o jovem poeta e o negociante de armas. Ao contrário do que pensam muitos biógrafos, as preocupações financeiras sempre importunaram Rimbaud. Não se trata de uma demanda mental nascida na África. Em várias de suas cartas literárias ele reclama da falta de recursos, o que não lhe permitia enviar aos amigos envelopes mais pesados e com mais poemas. Já em 28 de agosto de 1871, o poeta se dirige a um indiferente Paul Demeny para pedir emprego em Paris, ainda que seja como operário a 15 soldos por dia. O dinheiro, para Rimbaud, talvez tivesse função libertadora, ele que, por mais livre que fosse em seu mundo psíquico e estético, estava economicamente preso à insossa província francesa, à mãe religiosa e autoritária, a um destino rural e medíocre. Da mesma forma, a obsessão do amputado Rimbaud de escapar ao serviço militar reflete, ainda que de maneira muito distante, o cuidado do jovem poeta com a sua autonomia, que o levara a escrever em carta de 2 de novembro de 1870: “Obstino-me terrivelmente em adorar a liberdade livre”.

Do mesmo modo que os cabalistas, Rimbaud via-se como um exilado do cosmos, a antítese perfeita do cidadão do mundo pensado pelos filósofos estóicos. Dono de uma sensibilidade suscetível agravada pelo sentimento de orfandade que o acompanhou a vida toda — o pai que abandonou a família, a mãe avarenta e impositiva, o amante Verlaine infantil e indeciso —, Rimbaud acabou por maximizar sua solidão, dando-lhe contornos cósmicos. Se na juventude ele já sabia estar exilado na própria pátria graças à imbecilidade da turba com que era obrigado a conviver (carta de 25 de agosto de 1870), as freqüentes viagens pela Europa e pela África — marca de um deslocado, de um fugitivo — só lhe aumentaram a sensação de não pertencer a lugar nenhum, de ser um Outro, de estar destinado, sempre e sempre, ao abandono completo. Isso foi notado por sua irmã, que se tem o demérito de ter tentado construir uma falsa imagem conservadora e católica de Rimbaud após sua morte, por outro lado possui o mérito de ter compreendido profundamente a solidão essencial que marcou a vida de Rimbaud. Na última das cartas de Marselha, talvez respondendo a perguntas da mãe do poeta sobre o dinheiro que o morto iria legar-lhe, Isabelle desencoraja-a a esperar qualquer vintém, eis que tudo fora gasto na longa internação do irmão e em seu enterro, acrescentando, em tom ousado e digno de uma irmã de Rimbaud: “O que fiz por ele não foi por ganância, mas por ser meu irmão, e, abandonado pelo universo inteiro, não quis deixá-lo morrer sozinho e sem socorro” (28 de outubro de 1891). Nesta aguda percepção — “abandonado pelo universo inteiro” — se cifra o destino que é de Arthur Rimbaud, mas que também é nosso.

Andityas Soares de Moura

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Resenha de WALDEN OU A VIDA NOS BOSQUES, de Henry David Thoreau



UM HOMEM EM ESTADO DE ALERTA

Andityas Soares de Moura Costa Matos

“O mundo eu não o amei, nem ele a mim;
não bajulei seu ar vicioso, nem dobrei
aos seus idólatras o joelho do sim”.
Byron, Childe Harold, III, 113 .
(BYRON, George Gordon; KEATS, John. Byron e Keats: entreversos. Trad. Augusto de Campos. Campinas: Unicamp, 2009, p. 21).

No final de 2008 um filme passou desapercebido pelas massas, tendo recebido o frio desdém de Hollywood, o que já nos faz pensar que se trata, no mínimo, de uma obra honesta. Baseado em fatos reais recolhidos por Jon Krakauer, o diretor Sean Penn nos conta em Into the wild a história de Christopher McCandless, jovem norte-americano promissor que resolve largar tudo, abandonar a família, os estudos e o futuro profissional assegurado para se embrenhar em uma aventura de autoconhecimento cuja meta concreta era o Alasca, a natureza selvagem. Em sua jornada Christopher conhece várias pessoas que o auxiliam, mas seus principais companheiros são sempre os livros. É neles que o quase-estudante de Direito encontra inspiração e coragem para se tornar um outsider e renegar a falsa vida que nos é imposta. Na bagagem de Christopher conseguimos identificar alguns nomes, alguns títulos: Doutor Jivago, Tolstói e o bom e velho Thoreau. Em inúmeras passagens do filme o personagem principal cita trechos de Walden e chega a confundir a sua personalidade com a de Thoreau, apresentando-nos uma versão contemporânea e extremada deste grande pensador, que acaba de ganhar em Portugal uma nova edição de sua obra maior, já que não a mais conhecida, que é certamente o breve e cintilante ensaio A desobediência civil.
Famosa por desenvolver um dos projetos editoriais mais consequentes e criativos entre os poucos que existem no mundo leitor lusófono, a Antígona Editores Refractários comemora seus trinta anos na contramão do mercado lançando a segunda edição de Walden ou a vida nos bosques de Henry David Thoreau (1817-1862), um dos mais importantes nomes do movimento Transcendentalista norte-americano, discípulo de Emerson, filósofo, educador, naturalista, ativista político e escritor. Trata-se de uma belíssima edição que conta com a tradução exata e elegante da brasileira Astrid Cabral. Ainda que não seja muito fácil encontrar o livro no Brasil, vale a pena tentar obtê-lo em sites de compra como o da Livraria Cultura de São Paulo. Editado pela primeira vez em 1854 nos Estados Unidos da América, Walden se tornou um clássico entre os malditos, tendo inspirado a geração hippie, os escritores beatniks e todos os rebeldes com causa de uma ponta a outra do globo. A proposta de Thoreau é de uma singeleza a toda prova. Tendo se mudado para o bosque que circunda o lago Walden, ele construiu com as próprias mãos uma cabana e viveu em semi-isolamento de 1845 a 1847, até decidir voluntariamente retornar à civilização. Com exceção de algumas visitas pontuais, de caminhadas necessárias à cidade para comprar ferramentas e da prisão que teve de amargar em 1846 por se recusar a pagar impostos federais que seriam utilizados na guerra contra o México – será esta experiência o embrião de A desobediência civil –, Thoreau permaneceu cerca de dois anos em contato profundo com a natureza, reequilibrando os ritmos vitais do corpo e da mente e preparando a escrita de Walden. O autor explica suas razões em um trecho que se tornou justamente célebre ao ser citado em outro belo filme, Sociedade dos poetas mortos: “Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os factos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a ensinar-me, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, sendo a vida tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo o que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso” (p. 108).
Walden ou a vida nos bosques não tem propriamente um enredo, sendo antes o resultado das observações pessoais e das meditações de Thoreau. Enfrentar as suas quase 400 páginas às vezes constitui uma tarefa árdua, pois há capítulos inteiros em que Thoreau se dedica a explicar a dinâmica de congelamento do rio Walden, a descrever os inúmeros pássaros que o visitam pela manhã e a nos apresentar a sua contabilidade pessoal, impecável como a de todo bom puritano, título que Thoreau lutava para não merecer. Mas as passagens algo tediosas são largamente compensadas pelas intensas digressões filosóficas e artísticas de Thoreau, pelo seu pensamento comprometido com a causa da verdade e da liberdade, pelo seu estilo fulgurante, crítico ao extremo, iconoclasta e ainda assim delicioso, recordando-nos a verve mordaz de um seu conterrâneo do início do século XX, o jornalista Henry Louis Mencken, famoso pelas diabruras verbais. A linguagem, para Thoreau, é uma forma de comunicar a verdade, desde que não esteja infectada pelos vícios do politicamente correto, como ocorre nos nossos dias: “Desejo falar sem papas na língua seja onde for; como um homem em estado de alerta a outros homens em estado de alerta” (p. 352).
Mas por que um livro escrito há mais de 150 anos nos interessaria hoje? A resposta é óbvia quando observarmos nossas vidas vazias que se guiam exclusivamente tendo em vista imperativos econômicos e materiais, quando percebemos que algo nos falta, que a verdade está lá fora e não a conseguimos enxergar. Walden se coloca então como um ponto de fuga capaz de expor as nossas fraquezas e nos obrigar a ver a realidade tal como ela é: infinita, maravilhosa e vedada a todos aqueles que pervertem a sua própria essência. A estes só resta o sereno desespero: “Os homens, em sua maioria, levam vidas de sereno desespero. Aquilo a que se chama resignação é desespero crónico” (p. 22). Thoreau não contemporiza, não aceita subornos e não poupa ninguém, nem mestres e nem deuses. Seu ataque à civilização – personificada em correios, jornais, mobílias e despertadores – é demolidor e inclui a denúncia minuciosa do luxo, da pressa e até mesmo da caridade, essa espécie de falso bálsamo que faz os opressores dormirem melhor e não muda em nada as estruturas de poder. Em um mundo no qual reinasse a justiça não precisaríamos de caridade. A cobiça desenfreada, a política da qualidade total e do cliente-tem-sempre-razão, a gestão eficiente de coisas mundanas e inúteis nos fizeram esquecer que há algo além de lucro e prejuízo: “Por que deveríamos nós correr desesperadamente atrás do sucesso, em empreendimentos desesperados? Se um homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente. Deixai-o marchar conforme a música que ouvir, ainda que lenta e distante” (p. 353).
Segundo Thoreau, o papel da arte é o de despertar-nos para a verdade. Mas se hoje estamos limitados e emburrecidos pelas telenovelas, pelos reality shows e pelo futebol, como resistir ao futuro que se mostra inegavelmente opressor? Apaixonado pelo Oriente e pela Grécia, terras onde nasceu a verdade – terras onde ainda está a verdade –, Thoreau nos alerta para o processo de estupidificação a que somos submetidos diariamente pelos meios de comunicação dominados pelo Estado e pelo poder econômico. A pretexto de oferecer entretenimento, eles minam nossas energias, sabotam qualquer senso crítico e impõem um gordo e macilento comodismo: “As melhores obras de arte do homem exprimem a luta para libertar-se desta condição, mas o que resulta da nossa arte consiste apenas em tornar confortável este estado inferior e fazer-nos esquecer do outro mais elevado” (p. 53). Com isso falseiam-se as percepções e acabamos por entender que a caverna é a única realidade. Omitimo-nos diante das injustiças e dos desvarios do Poder, assim como os contemporâneos de Thoreau, que concordavam com a escravidão ao considerá-la uma instituição social perfeitamente normal. Hoje são outras as servidões, mais alarmantes porque mais sutis e permanentes. Trata-se agora da servidão do espírito.
Thoreau retoma Platão e antecipa Chomsky ao notar que: “Ao mesmo tempo que a realidade é uma fábula, simulações e enganos são considerados como as verdades mais sólidas” (p. 113). Isso porque somos acostumados desde a mais tenra infância a não questionar, a sermos educados, sorridentes e servis, a temermos Pai, Deus e Polícia. Profundamente desmobilizador, o Cristianismo nos ensina que há mistérios e homens-deuses que se deixaram torturar para ganhar o céu em benefício de nossa raça que, absurdo, já nasceu marcada pelo pecado original. Em um ambiente assim a verdade se reserva aos Papas e Carolas, aos Presidentes e Ministros dos Supremos Tribunais, ao Professor Doutor ou ao Líder Sindical, todos com maiúsculas reluzentes e santas, levando-nos a considerar “[...] a verdade como algo remoto, nas imediações do sistema solar, atrás da mais longínqua estrela, anterior a Adão e posterior ao derradeiro homem” (p. 114). Por isso a obra de Thoreau é urgente, por isso é perigosa como tudo que é urgente. Tal e qual seus célebres sucessores – Gandhi, Luther King, Marcuse, Chomsky etc. –, Thoreau se envolve até a medula em um processo radical de desencobrimento do Real mediante o qual somos habilitados a torcer e a retorcer as opiniões dadas e herdadas, como quando afirma que: “Só os derrotados e os desertores vão para as guerras, covardes que fogem e se alistam” (p. 350). As sentenças de Thoreau em Walden – sempre inapeláveis, sempre certeiras – podem até nos parecer ácidas, sendo mesmo insuportáveis para muitos, acostumados que estão a serem números e não homens, mas nelas não se esconde nenhum pessimismo como querem alguns e muito menos idealismos, anarquismos e utopismos. Para além dos rótulos comportados que compõem os índices dos manuais de Filosofia, Thoreau se compromete com um único valor, a exemplo de Christopher McCandless: “Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade” (p. 358). Ainda que Walden contivesse infinitas tolices – e não é este o caso –, tal súplica bastaria para justificar o livro inteiro.